Reajuste de 10% aguenta perder nove em cada cem
A conta que decide um aumento de preço cabe numa linha, e ela desmente a intuição: quanto maior a margem da clínica, menos volume o reajuste aguenta perder. No consultório paulistano medido, o limite é 9,18%.

Rodolfo Franzim
· 15 min de leitura

A clínica decide reajustar e a conversa trava sempre no mesmo ponto. Alguém diz que dez por cento é pouco. Alguém responde que o paciente vai embora. Ninguém tem o número, e a decisão sai no palpite de quem fala mais alto.
A pergunta que resolve isso não é quanto subir. É quantos pacientes a clínica pode perder depois de subir.
Essa segunda pergunta tem resposta exata, e ela cabe numa linha. As fontes deste artigo foram publicadas entre 1992 e 2016, com a série de preços do IBGE puxada em 8 de setembro de 2026, e a conta que abre o texto é mais velha que todas elas. O reajuste não sai na frente porque a margem da clínica é alta. Sai na frente apesar disso.
Este blog já mostrou quantas consultas pagam o custo fixo do mês e já mediu o que some junto com o paciente que falta. Os dois números voltam aqui, do outro lado: agora eles decidem quanto o preço pode subir.
A conta cabe numa linha
Empatar depois de um reajuste significa terminar o mês com a mesma margem total. O custo fixo não entra: ele é o mesmo com a agenda cheia ou vazia, então some dos dois lados da conta e não precisa nem ser conhecido.
Chame de margem o que sobra do preço depois de tirar só o que existe porque o paciente veio, escrita como fração do preço. Chame de reajuste a fração que o preço vai subir. O que resta é uma divisão:
queda tolerável de volume = reajuste ÷ (margem + reajuste)
Uma clínica que trabalha com margem de 70% e sobe o preço 10% aguenta perder 12,5% dos pacientes antes de o aumento virar prejuízo. Com margem de 30%, aguenta perder 25%. Com margem de 99%, aguenta perder 9,2%.
Leia a última frase de novo, porque ela é o artigo inteiro.
Quanto maior a margem, menor a folga
A intuição de mercado diz que margem alta protege o reajuste. A aritmética diz o contrário. Quem tem margem baixa ganha muito ao somar dez pontos de preço: a margem de 30 vira 40, um terço a mais em cada atendimento, e por isso ele aguenta perder um quarto do movimento. Quem tem margem de 99 vira 109, dez por cento a mais, e a folga encolhe junto.
90%
A folga por faixa de margem, para três tamanhos de reajuste:
- Margem de 30%: aguenta perder 14,3% com reajuste de 5%, 25,0% com 10%, 40,0% com 20%.
- Margem de 50%: aguenta perder 9,1%, 16,7% e 28,6%.
- Margem de 70%: aguenta perder 6,7%, 12,5% e 22,2%.
- Margem de 99%: aguenta perder 4,8%, 9,2% e 16,8%.
A conta não é invenção da casa. A McKinsey publicou em 2003 que, com a economia média de uma empresa do S&P 1500, o volume precisaria subir 18,7% para compensar um corte de 5% no preço. A demonstração de resultado que eles imprimem ao lado dá margem de 31,7%, e a mesma divisão, alimentada com um corte no lugar de um aumento, devolve 18,73%.
Naquele consultório, a margem da consulta era de quase 99%
Num consultório da Zona Oeste de São Paulo, medido de maio a julho de 2012 por Ambrogini, Albuquerque e Souza, o oftalmologista cobrava R$ 350,00 do paciente particular. Em maio ele atendeu 99 deles, faturou R$ 34.650,00, e tudo o que variou com esses pacientes somou R$ 359,75. A margem de contribuição ficou em R$ 34.290,25, ou 98,96% do preço. Dividido pelos 99 atendimentos, o custo variável sai a R$ 3,63 cada.
O mesmo estudo abre o que são esses R$ 3,63, e vale abrir junto: R$ 2,90 de telefone, R$ 0,68 de materiais básicos e R$ 0,05 de papelaria. A conta do telefone respondeu por quatro quintos do custo variável do consultório, e linha telefônica não some quando o paciente falta. Tirando o telefone, o que de fato acompanha o paciente é R$ 0,73.
R$ 0,73
Clínica é o caso extremo da tabela acima. Quase tudo o que ela paga é estrutura comprada por mês, e a sala custa mais que o médico justamente porque o custo mora no calendário, não no atendimento. É isso que a põe do lado errado do pivô de 90%.
Subir 10% e perder 10% é prejuízo, e dá para medir quanto
Cem consultas de R$ 350,00 com custo variável de R$ 3,63 rendem R$ 34.637,00 de margem. Sobe o preço para R$ 385,00 e perca dez pacientes: noventa consultas de margem unitária R$ 381,37 rendem R$ 34.323,30.
A clínica trabalhou dez atendimentos a menos e terminou o mês com 0,91% menos margem. Não é catástrofe. Também não é o empate que a conversa da sala assume.
9,18%
Quanto volume some de verdade: a literatura dá duas respostas
A folga é estreita, então tudo depende da perda real. E aqui a evidência se divide em duas famílias que quase nunca aparecem lado a lado, embora morem na mesma revisão: a que a RAND publicou em 2002 sobre a literatura econômica de demanda por saúde, encomendada pelo Departamento de Defesa americano para calibrar o sistema de saúde militar.
A primeira família mede coparticipação de plano de saúde, e acha respostas pequenas. A revisão resume que a elasticidade tende a se concentrar em −0,17, ou seja, 1% de aumento no preço derruba 0,17% do gasto com saúde. As seis linhas da Tabela 3.1 cuja quantidade medida é consulta, e não gasto, ficam nesta faixa:
- Cherkin e colegas, 1989, num plano de Puget Sound: −0,04.
- Beck, 1974, em Saskatchewan: −0,07.
- Scitovsky e Snyder, 1972, no Palo Alto Group Health Plan de 1966 a 1968: −0,14.
- Wedig, 1988, sobre a pesquisa domiciliar americana de 1980: de −0,16 a −0,35.
- Scitovsky e McCall, 1977, no mesmo plano de Palo Alto, de 1968 a 1972: −0,29.
- Fuchs e Kramer, 1972, sobre tabulações fiscais de 1966: de −0,10 a −0,36.
Nessa família, um reajuste de 10% custaria entre 0,4% e 3,6% do volume. Contra uma folga de 9,18%, sobraria espaço de sobra, e o artigo poderia terminar aqui.
Não termina, porque existe a segunda família.
A segunda mede o preço que o paciente paga ao consultório, e acha respostas dez vezes maiores. Duas linhas da Tabela 3.2 da mesma revisão fogem do padrão. McGuire, em 1981, usou uma pesquisa com psiquiatras de consultório feita em 1973, com o desembolso direto como preço e o número de visitas como quantidade, e concluiu que a elasticidade da demanda por psicoterapia é de −1,0 ou maior. Frank, em 1985, com dados estaduais americanos de 1970 a 1978 e o preço dos serviços psiquiátricos como medida, achou de −1,0 a −2,0.
Com −1,0, um reajuste de 10% leva 10% do volume. Com −2,0, leva 20%. A folga do consultório paulistano é 9,18%.
0,4% ou 20%
A própria revisão explica a distância, e a explicação é de método: estudos observacionais acham elasticidades bem maiores que os de experimento natural. Mas existe uma segunda diferença, e é a que interessa a quem vai reajustar. Quando o preço que muda é a coparticipação do plano, ele muda para a rede inteira ao mesmo tempo, e o paciente não tem para onde ir. Ele consome menos, ou consome igual. Trocar de clínica não é uma das saídas que esse desenho consegue enxergar.
A clínica que reajusta sozinha enfrenta as duas saídas, e é por isso que a família observacional descreve melhor a situação dela. A RAND também registra o limite dos dois estudos: a amostra de McGuire só tinha gente já em tratamento, com uso pesado sobre-representado. São duas medições, as duas de saúde mental, as duas de mais de quarenta anos atrás. Não encontramos, em busca aberta, nenhum estudo brasileiro que meça o que acontece com o volume de uma clínica particular quando ela mexe na própria tabela.
O caso em que uma casa reajustou 67% e mediu o que aconteceu
Em setembro de 2009, o ambulatório de psiquiatria do University College Hospital de Ibadan, na Nigéria, teve as taxas reajustadas, e a consulta passou de 750 para 1.250 Naira, um aumento de 67%. Esan comparou os doze meses anteriores com os doze seguintes: o comparecimento semanal médio caiu de 128,5 para 84,3 atendimentos, queda de 34,4%, com significância estatística. A elasticidade medida foi −0,85.
Um terço dos atendimentos evaporou. E, mesmo assim, a receita bruta semanal subiu 9,3%, porque a fórmula lá em cima dava 40% de folga para um reajuste de 67% num serviço que supomos ter custo variável perto de zero, suposição da casa que o estudo não mede. A conta previu o resultado de um hospital nigeriano que nunca ouviu falar dela.
−34,4% e +9,3%
O próprio autor lista o que o estudo não tem: sem grupo de controle, sem estrato de renda, e sem conseguir separar quem parou de vir de quem passou a vir menos, porque o que ele conta são consultas, não pessoas. Também não observa ninguém trocando de prestador, apenas levanta a hipótese. E é o ambulatório de um hospital público de ensino, num país onde a maior parte do gasto em saúde sai do bolso. Serve para mostrar o mecanismo, nunca para virar taxa brasileira.
O 1% de preço que rende 11% de lucro nunca mediu preço nenhum
Quem discute reajuste em clínica cedo ou tarde ouve esse número. Ele saiu na edição de setembro-outubro de 1992 da Harvard Business Review, num artigo de Marn e Rosiello que a revista vende até hoje, cujo primeiro quadro promete que 1% de melhoria de preço cria 11,1% de lucro operacional, contra 7,8% do custo variável, 3,3% do volume e 2,3% do custo fixo. A única nota de fonte diz: baseado na economia média de 2.463 empresas do agregado Compustat.
Reconstruir a demonstração de resultado por trás das quatro barras leva um minuto, e o resultado é constrangedor. Margem operacional de 9,009% da receita, custo variável de 70,270%, custo fixo de 20,721%. As quatro alavancas não são quatro medições: são a mesma demonstração de resultado dividida quatro vezes, cada barra sendo o peso daquela linha sobre a margem operacional. O 11,1% quer dizer apenas que 1 dividido por 0,09 dá 11.
A prova está no mesmo autor, onze anos depois. Em 2003, no McKinsey Quarterly, Marn voltou ao assunto com a economia média de uma empresa do S&P 1500, e o mesmo 1% de preço passou a valer 8%. Não houve descoberta no meio do caminho: a margem operacional da amostra escolhida foi de 9,0% para 12,5%, e o número é o inverso dela. Para uma clínica com margem operacional de 15%, o mesmo 1% de preço vale 6,7%.
E o artigo de 1992 declara, com todas as letras, a hipótese que o folclore descarta pelo caminho: supondo nenhuma perda de volume. O número mais citado do assunto assume resolvida exatamente a pergunta que a clínica está tentando responder.
No triênio da pandemia, a consulta perdeu da inflação
Há um argumento comum de que o preço da consulta sempre acompanha os custos. O IPCA tem um subitem próprio para isso, o 6201002, chamado Médico, e ele responde de dois jeitos conforme a janela.
Puxando as duas séries do SIDRA em 8 de setembro de 2026: de janeiro de 2012 a dezembro de 2019, 96 meses seguidos, o subitem Médico subiu 74,08% enquanto o IPCA cheio subiu 56,31%. A consulta ficou 11,37% mais cara em termos reais. De janeiro de 2020 a dezembro de 2022, 36 meses, o sinal se inverte: Médico subiu 13,62% contra 21,69% do índice cheio, uma perda real de 6,63%.
Repare em quem é o dono desse número. O subitem Médico já embute os reajustes que as clínicas de fato fizeram, então os 6,63% são a perda de quem reajustou na média do mercado. Quem congelou o preço nesses três anos ficou 17,8% mais barato, que é o IPCA cheio inteiro.
A conta da sua clínica, em quatro passos
- Ache o que some com o paciente. Material que se usa na consulta, taxa de cartão, imposto sobre aquela nota, repasse de quem atende. Conta de telefone, aluguel e folha da recepção ficam de fora, mesmo que o sistema as classifique como variáveis.
- Divida por consulta e tire do preço. O que restar, dividido pelo preço, é a sua margem. O estudo paulistano deu 98,96% sem contar imposto, que ele classifica como despesa; com o imposto dentro, a margem daquele consultório cairia para perto de 95%, e a folga subiria para 9,5%.
- Aplique a divisão. Reajuste dividido pela soma de margem e reajuste. Com margem de 95% e reajuste de 8%, dá 7,8%: é quanto do volume o aumento aguenta perder.
- Compare com a sua agenda, não com a literatura. Se você atende 200 pacientes por mês, 7,8% são 15 pessoas. Num preço de R$ 350,00, um aumento de 8% são R$ 28,00. A pergunta que sobra é se 15 pacientes seus saem por R$ 28,00, e essa você responde olhando quem eles são.
O que essa evidência não diz
A fórmula é aritmética e vale sempre. Tudo o mais neste texto tem limite, e são quatro.
As elasticidades são de outro país e de outra época. A Tabela 3.1 da revisão da RAND vai de 1971 a 1998 e mede planos dos Estados Unidos, do Canadá e do Reino Unido; as seis linhas de consulta que usamos vão de 1972 a 1989. As duas medições de preço de consultório são de 1981 e 1985, as duas de saúde mental, as duas observacionais. Nenhuma é de clínica brasileira, e não encontramos nenhuma que seja.
O consultório paulistano é um consultório. São dois médicos e três meses de 2012, num mês em que o oftalmologista atendeu 283 pacientes, dos quais 99 particulares, e o resto veio de convênio e de retorno. Clínica que repassa percentual para o médico que atende tem margem de contribuição muito menor, e nesse caso a folga é maior, não menor.
A conta ignora quem sai. Ela trata dez pacientes perdidos como dez consultas a menos, e um paciente vale o que devolve enquanto fica. Quem sai por preço leva junto os retornos dos anos seguintes, e esse custo não aparece no mês do reajuste.
Não medimos a consulta eletiva. Onde o serviço é adiável, a resposta a preço é bem maior: no Chile, Duarte mediu elasticidade de despesa de −2,08 na consulta de psicólogo contra praticamente zero numa apendicectomia. O que este artigo descreve vale para a consulta que o paciente já decidiu fazer.
Perguntas rápidas
Quanto posso aumentar o preço da consulta?
A conta não responde quanto subir, responde quanto dá para perder depois de subir. Divida o reajuste pela soma de margem e reajuste: com margem de 98,96% e reajuste de 10%, a clínica aguenta perder 9,18% do volume. Se você acredita que perderá menos que isso, o aumento sai na frente.
Vale a pena aumentar o preço mesmo perdendo pacientes?
Depende de quantos saem, e a conta dá o limite. No consultório paulistano medido em 2012, cem consultas rendiam R$ 34.637,00 de margem e noventa consultas reajustadas rendem R$ 34.323,30, uma queda de 0,91%. O empate exato de 10% por 10% só acontece com margem de contribuição de 90%.
Qual é a margem de contribuição de uma consulta?
É o preço menos o que só existe porque o paciente veio. No consultório de São Paulo medido em 2012, tudo o que variava somava R$ 3,63 numa consulta de R$ 350,00, e R$ 2,90 disso era conta de telefone. Sem o telefone, o insumo que acompanha o paciente é de R$ 0,73.
Paciente troca de clínica por causa de preço?
Não encontramos medição brasileira disso. Nos estudos de coparticipação de plano, a resposta é pequena, de 0,04% a 0,36% de volume para cada 1% de preço, mas esse desenho não enxerga troca de prestador. Nos dois que mediram preço de consultório, a resposta vai de 1% a 2% para cada 1% de preço.
O preço da consulta acompanha a inflação?
Depende da janela. Entre janeiro de 2012 e dezembro de 2019, o subitem Médico do IPCA subiu 74,08% contra 56,31% do índice cheio. Entre janeiro de 2020 e dezembro de 2022, subiu 13,62% contra 21,69%, ou seja, perdeu 6,63% em termos reais. Quem não reajustou nada nesse triênio perdeu 17,8%.
Referências
- Ambrogini, E. B. de M.; Albuquerque, A. A. de; Souza, K. G. de. Aplicação dos principais métodos de custeio em um consultório médico. XXI Congresso Brasileiro de Custos, 2014.
- Ringel, J. S.; Hosek, S. D.; Vollaard, B. A.; Mahnovski, S. The Elasticity of Demand for Health Care: A Review of the Literature and Its Application to the Military Health System. RAND Corporation, 2002.
- Esan, O. Price elasticity of demand for psychiatric consultation in a Nigerian psychiatric service. African Health Sciences, 2016.
- Marn, M. V.; Roegner, E. V.; Zawada, C. C. The power of pricing. The McKinsey Quarterly, 2003.
- Marn, M. V.; Rosiello, R. L. Managing price, gaining profit. Harvard Business Review, 1992.
- Duarte, F. Price elasticity of expenditure across health care services. Journal of Health Economics, 2012.
- IBGE. Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, subitem 6201002 (Médico). Sistema IBGE de Recuperação Automática, tabelas 1419 e 7060.
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Rodolfo Franzim
Cofundador da Hiperclini, empresário há quase dez anos. Toca por dentro a operação de uma clínica e fundou uma auditoria de marketing que já atendeu mais de 300 clientes. Escreve sobre venda consultiva, negociação e growth marketing pra quem toca clínica no Brasil.