Gestão de clínica

A vaga devolvida tem outro dono

Quem avisa que não vem devolve uma vaga, e quase sempre ela morre vazia. O que já foi medido sobre o relógio entre o aviso e a consulta.

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Rodolfo Franzim

· 16 min de leitura

Faixas brancas pintadas sobre o asfalto de um estacionamento, delimitando vagas vazias
Foto: Ingo Zöll (Unsplash)

São 16h20 de uma terça. Chega mensagem no WhatsApp da recepção: “não vou conseguir amanhã às 9h”. A recepcionista responde que não tem problema, agradece o aviso e arquiva a conversa.

A conversa terminou bem. A vaga das 9h continua vazia.

As fontes deste artigo foram publicadas entre 2001 e 2022. Cancelar não devolve a consulta: devolve uma vaga com relógio correndo. Quanto tempo sobra nesse relógio, e quem chega a tempo de pegar a vaga, é o que já foi medido. O que a cadeira vazia custa está no artigo sobre a agenda que parece cheia, e o que acontece com o próprio paciente que cancela e remarca tarde está no artigo sobre ver sempre o mesmo médico. Este é sobre a vaga que ele deixou para trás.

A coluna que ninguém olha é maior que a coluna que dói

Mariano Menendez e David Ring separaram as duas coisas em 14.793 primeiras consultas de adultos no ambulatório de cirurgia de mão do Massachusetts General Hospital, em Boston, entre 1º de janeiro de 2011 e 31 de dezembro de 2013. Falta, na definição deles, é quem perde a consulta sem avisar a recepção (Hand, 2015).

18% contra 5,9%

foi o cancelamento comparado à falta, nas mesmas 14.793 primeiras consultas de um ambulatório de cirurgia de mão em Boston. São 2.715 cancelamentos e 880 faltas. A coluna que dói na recepção é a menor das duas.Menendez e Ring, Hand, 2015

A clínica conhece a falta porque ela grita: a cadeira fica vazia com alguém olhando. O cancelamento entra em silêncio, dias antes, e some do radar exatamente por ter sido educado.

A fronteira entre falta e cancelamento é decisão da clínica

Antes de medir qualquer coisa, alguém precisa decidir o que conta como o quê. E essa decisão não vem da natureza.

Vincent Chariatte, Pierre-André Michaud, André Berchtold, Christina Akré e Joan-Carles Suris analisaram 32.816 consultas de uma unidade multidisciplinar de saúde do adolescente de um hospital universitário suíço, de 1º de janeiro de 1999 a 31 de dezembro de 2006. A falta ficou em 11,8% e o cancelamento em 10,9% (Swiss Medical Weekly, 2007). O critério que separa os dois está escrito no artigo, em tradução nossa:

A política oficial do hospital é que uma consulta deve ser considerada perdida se não for justificada com pelo menos 24 horas de antecedência. Na nossa unidade, porém, damos valor ao fato de o adolescente fazer o esforço de ligar. Por isso, qualquer cancelamento feito antes da consulta, mesmo em cima da hora, é codificado como cancelamento.

A mesma ligação, às 8h da manhã do dia da consulta, vira uma linha numa planilha ou noutra dependendo de quem escreveu o manual. E dá para ver o efeito disso em movimento: a partir de 1º de janeiro de 2004 aquele hospital passou a cobrar pelas consultas perdidas sem aviso. A falta não se moveu, 11,9% antes e 11,6% depois, com razão de chances ajustada de 0,96 e intervalo de confiança de 99% entre 0,83 e 1,10. O cancelamento saltou de 8,4% para 14,5%, com razão de chances de 1,83 e intervalo entre 1,63 e 2,05.

A política não fez ninguém comparecer: fez as pessoas ligarem antes. O que a multa por falta faz, e o que ela esbarra no Brasil, está no artigo sobre a multa por falta.

O lembrete conserta a falta e não encosta no aviso tardio

Ole Wolthers acompanhou dois anos seguidos de um centro pediátrico ambulatorial em Randers, na Dinamarca, contando separadamente quem não apareceu e quem cancelou dentro das 24 horas antes da hora marcada. De 1º de março de 2016 a 28 de fevereiro de 2017 a clínica não mandava nada. De 1º de março de 2017 a 28 de fevereiro de 2018, passou a mandar SMS automático 24 horas antes, para um dos pais (Danish Medical Journal, 2019).

A falta despencou: 196 em 4.566 agendamentos no ano sem SMS, 4,3%, contra 67 em 4.464 no ano com SMS, 1,5%, com p menor que 0,001. O cancelamento tardio ficou onde estava: 162 no primeiro ano, 3,5%, e 177 no segundo, 4,0%, com p de 0,28.

4,0%

foi o cancelamento em cima da hora depois que a clínica pediátrica dinamarquesa passou a mandar SMS. Antes era 3,5%, e a diferença não se distingue de zero. No mesmo lugar, no mesmo período e com a mesma mensagem, a falta caiu de 4,3% para 1,5%.Wolthers, Danish Medical Journal, 2019

O motivo que as famílias deram desmonta a leitura simpática do aviso. Perguntadas por telefone, 85 das 162 no ano sem SMS e 115 das 177 no ano com SMS disseram a mesma coisa: esqueceram e não conseguiram vir. Escola aparece depois, com 22 e 11 casos. Pais sem tempo, com 11 e 18.

Cancelar em cima da hora costuma ser a mesma esquecida, descoberta algumas horas antes. Quem avisa às 22h da véspera não é a versão educada do faltoso. É o mesmo esquecimento, com um telefone na mão.

Tarde não é uma hora do relógio, é um prazo de logística

Cada serviço desenha a própria fronteira, e os que pensaram nela a definem pelo tempo que levam para reocupar a vaga, não por um número redondo. Te-Wei Ho e colegas estudaram 12.390 agendamentos do centro de check-up do Hospital Universitário Nacional de Taiwan, em Taipé, ao longo de 2019, e escrevem o critério assim, em tradução nossa (BMC Health Services Research, 2021):

Cancelamentos feitos nos sete dias anteriores ao dia do exame são, em geral, tarde demais para que alguém ocupe a vaga. Por isso eles são definidos como cancelamentos tardios neste estudo de caso.

Sete dias, e não 24 horas, porque é isso que a operação daquele centro leva. O cancelamento tardio ficou em 3,34% ali, 269 de 8.046 agendamentos analisados, e os autores contabilizam cerca de 4% das oportunidades de exame desperdiçadas.

Eellan Sivanesan e colegas, de uma clínica acadêmica de dor crônica da Universidade de Miami, foram mais diretos e juntaram as duas colunas de propósito (Journal of Clinical Anesthesia, 2017):

Se um paciente não compareceu à consulta, ou ligou para cancelar dentro de um dia útil, chamamos esses eventos de cancelamentos, por conveniência. Funcionalmente eles são equivalentes, porque nos dois casos não haveria tempo suficiente para preencher a vaga com outro paciente.

Falta quem transforme isso em medida contínua. Ken Monahan e Daniel Fabbri fizeram: em 67 semanas de ambulatório de cardiologia de um único médico, ao longo de 18 meses, num centro médico acadêmico americano, com cerca de 900 consultas, mediram o intervalo entre o aviso e a hora marcada, atribuindo zero a quem não avisou nada (International Journal of Medical Informatics, 2018).

Cerca de 30% desses intervalos tinham valor positivo, e quase metade dos positivos passava de três horas. Multiplicar as duas frações é conta nossa, não da fonte, e ela dá algo perto de uma vaga recuperável a cada sete perdidas. Aquela agenda tinha 80% de ocupação e 80% de comparecimento, o que deixa dois terços de aproveitamento real e quase oito vagas sobrando por semana de ambulatório.

Alguém sorteou isso em 2001, e achou o contrário do esperado

O achado mais antigo deste artigo é também o de desenho mais forte. Hashim, Franks e Fiscella sortearam pacientes de uma clínica-escola urbana de medicina de família entre receber ou não uma ligação um dia antes da consulta: 479 pessoas ligadas e 424 não ligadas (Journal of the American Board of Family Practice, 2001).

A falta caiu de 26% para 19%, com p de 0,0065. E o cancelamento subiu de 9,9% para 17%.

A ligação comprou aviso, não presença. Os autores escrevem que as vagas abertas por esses cancelamentos foram usadas para marcar outros pacientes, e que a receita disso pagou o custo das ligações. Quantas vagas foram, não achamos: o resumo não diz, e o texto completo está atrás de paywall.

Dezessete anos depois, Lucy Moran, Kieran O’Loughlin e Brendan Kelly acompanharam três janelas de seis meses num serviço comunitário de saúde mental adulta em Dublin. Antes do SMS: 2.170 consultas oferecidas, 22,2% de ausência. Logo depois: 2.092 consultas, 13,9%, com p menor que 0,001. Dois anos e meio depois: 2.474 consultas e a ausência de volta a 19,3% (Irish Journal of Medical Science, 2018).

O efeito passou. O canal não: 73% dos 98 cancelamentos da segunda janela e 75% dos 197 da terceira chegaram por SMS. A conclusão dos autores, em tradução nossa:

O valor principal dos lembretes por SMS não está em lembrar o paciente da consulta, mas em oferecer um jeito conveniente de cancelá-la, permitindo assim que mais consultas sejam oferecidas.

Alguém contou as vagas realocadas, e elas foram quinze

Aqui está o número em que o assunto inteiro se pendura, e ele vem de um ensaio randomizado. Noelle Junod Perron e colegas sortearam 2.123 pacientes dos Hospitais Universitários de Genebra, na Suíça, entre abril e junho de 2008, num ambulatório de atenção primária e num de HIV. O grupo de intervenção, com 1.052 pessoas, recebia lembrete 48 horas antes: ligação, SMS para quem não atendeu, carta para quem não tinha celular (BMC Family Practice, 2010).

A falta caiu de 122 em 1.071, 11,4%, para 82 em 1.052, 7,8%, com p menor que 0,005. Mas o que interessa está numa frase que quase ninguém cita.

15 de 54

das vagas abertas viraram consulta de outra pessoa. Das 730 pessoas lembradas por telefone 48 horas antes, 54 cancelaram durante a própria ligação, e 27,8% dessas vagas foram realocadas. É a única fração da vaga devolvida que sai de um ensaio randomizado, e ela conta só as vagas abertas durante a própria ligação.Junod Perron et al., BMC Family Practice, 2010

Abaixo de 24 horas, a conta não sobrevive, e o estudo diz isso por escrito. Houve 26 cancelamentos com menos de 24 horas no grupo de intervenção e 56 no controle. Sobre eles, os autores registram que a realocação das vagas livres não foi anotada, por se considerar a ocorrência muito rara.

Quando o aviso chega dentro das 24 horas, a chance de a vaga virar outra consulta é tão pequena que os pesquisadores pararam de contar. Não é que o número seja ruim. É que ninguém achou que valia a pena registrar.

Um país inteiro deixou o cancelamento barato

O Chile implantou, entre janeiro de 2015 e dezembro de 2016, um sistema nacional de mensagem para consulta de paciente crônico. O SMS ia de 24 a 48 horas antes, com data, local e hora, para quem tinha diabetes tipo 2, hipertensão ou dislipidemia. Cancelar era responder a mensagem. Remarcar continuava exigindo uma ligação.

Claire Boone, Pablo Celhay, Paul Gertler, Tadeja Gracner e Josefina Rodriguez pegaram o painel público de 757 clínicas de atenção primária em 303 municípios, 267 que adotaram o sistema e 490 de controle, com dados semestrais de 2013 a 2016 (Journal of Health Economics, 2022).

As consultas dos pacientes crônicos, que eram justamente quem recebia a mensagem, não mudaram.

7,4%

foi o aumento de consultas de pacientes agudos nas clínicas chilenas que adotaram o SMS, a partir do segundo ano. Pacientes agudos não recebiam mensagem nenhuma. Quem recebia, os crônicos, não consultou mais. No primeiro ano o aumento tinha sido de 5,0%, e a média deu 1.031 consultas a mais por clínica em três semestres.Boone et al., Journal of Health Economics, 2022

Quem ficou com a vaga devolvida não foi quem a devolveu. O paciente crônico cancelava respondendo à mensagem, esperava a consulta regular seguinte e não voltava antes. A vaga que ele abriu foi ocupada por quem precisava de atendimento agudo naquela semana, que é exatamente quem esperava mais no sistema chileno. O ganho foi maior onde havia mais crônico para cancelar: as clínicas com a maior fatia de consultas de elegíveis na linha de base tiveram 11,6% mais consultas de não elegíveis, contra 2,8% nas de fatia menor.

Mais da metade das ofertas foi aberta tarde demais

Sukyung Chung, Meghan Martinez, Dominick Frosch, Veena Jones e Albert Chan analisaram o Fast Pass da Sutter Health, sistema sem fins lucrativos do norte da Califórnia, entre julho e dezembro de 2018. O paciente entra na lista pelo portal e escolhe receber por e-mail, SMS ou os dois. O sistema dispara nove lotes por dia, e cada vaga vai para cinco pessoas ao mesmo tempo, por ordem de chegada (Journal of Medical Internet Research, 2020).

Foram 177.311 ofertas, cobrindo 44.792 vagas, para 38.361 pacientes.

53,3%

das 177.311 ofertas de vaga liberada foram abertas depois que a oferta já tinha expirado ou a vaga já tinha sido tomada por outra pessoa. Outros 19,4% nunca foram abertos. Aceitas, 8,3%: 14.717 ofertas, para 44.792 vagas oferecidas a 38.361 pacientes.Chung et al., Journal of Medical Internet Research, 2020

A vaga não some por falta de gente querendo: some por falta de gente olhando a tempo. Quem aceitou foi atendido, em média, 14,8 dias antes do que estava marcado na atenção primária e 23,7 dias antes na especialidade. E a consulta nascida de uma oferta aceita faltou menos: 2,1% contra 3,4% nas consultas pareadas, diferença de 1,3 ponto, ou 38%, com p menor que 0,001.

A oferta por SMS teve razão de chances de 1,46 de ser aceita comparada à oferta só por e-mail, com intervalo de confiança de 99% entre 1,37 e 1,55. A disparada à noite teve 2,30 comparada à da madrugada. Canal e horário do disparo pesaram mais do que a existência da lista.

E aqui os dois números do artigo se encontram. Em Genebra, com alguém ligando à mão em 2008, 15 das 54 vagas abertas viraram consulta de outra pessoa: 27,8%, calculado pelos autores. Na Califórnia, com o sistema disparando sozinho dez anos depois, foram 14.717 ofertas aceitas para 44.792 vagas oferecidas. Essa divisão é nossa, não da fonte, e dá 32,9%.

Perto de um terço da vaga devolvida encontra dono novo, e os outros dois terços morrem vazios nas duas medições. Uma tem 54 vagas e um sorteio; a outra tem 44.792 e nenhum. Os denominadores não são a mesma coisa, e mesmo assim as duas pousam no mesmo lugar, em dois continentes, com dez anos de distância.

A lista de reserva existe, e sozinha ela rende pouco

Vaki Antoniou, Olivia Burke e Roland Fernandes auditaram a sala de cirurgia geral eletiva do William Harvey Hospital, em Ashford, na Inglaterra, entre janeiro e março de 2018. O hospital cancelava de 15 a 20 operações no dia da cirurgia por mês, deixando 27 horas de sala paradas. O próprio serviço valora a hora de sala em 2.500 libras, então o desperdício mensal era de 67.500 libras (BMJ Open Quality, 2019).

Em março de 2018 entrou a lista de reserva: pacientes ASA I ou II, para operações simples sem equipamento especial, dispostos a vir em cima da hora, chamados por telefone no dia do cancelamento. Entre abril e junho, ela recuperou 2,25 horas de sala por mês, 8,3% das 27. Em junho entrou uma segunda mudança, a pré-avaliação acelerada, e o reaproveitamento subiu para 11,5 horas por mês, 42,6%.

Lista de reserva não é uma lista: é alguém ligando no dia. E o salto de 2,25 para 11,5 horas não veio da lista ficar maior. Veio de destravar a etapa que impedia o paciente da lista de entrar na sala no mesmo dia. As 345 mil libras anuais que o artigo cita são extrapolação dos três meses medidos, e os autores dizem isso.

A outra saída para o mesmo buraco é não esperar a vaga vagar e marcar gente a mais desde o começo, o que tem preço próprio e artigo próprio em o encaixe cobra do próximo paciente.

No Brasil, o aviso não muda de coluna

Aqui a distinção some antes de virar dado. Tauani Cordeiro e colegas estudaram as consultas especializadas reguladas de Gaspar, em Santa Catarina, entre abril e agosto de 2017: das 7.422 consultas ofertadas nas especialidades analisadas, 906 não aconteceram por ausência do usuário, 12,2%. Depois entrevistaram por telefone 273 dos 496 faltosos da amostra (Arquivos Catarinenses de Medicina, 2020).

O motivo mais citado, com 84 das 269 respostas, foi não ter sido informado da data da consulta. E há uma frase na discussão que explica por que nenhuma estatística brasileira separa cancelamento de falta:

Alguns usuários referem ter avisado que não poderiam comparecer a consulta ou solicitaram que fosse desmarcada. Mas o aviso não surtiu o efeito esperado, cessão da vaga para outra pessoa. Além disso, outros usuários referiram que a consulta foi cancelada pela policlínica municipal pela falta de profissionais ou por problemas com equipamentos. Apesar das justificativas alegadas pelos usuários, em ambos os casos o sistema contou essa consulta como não realizada pela falta do usuário.

O paciente que avisou e o serviço que cancelou entram na mesma linha, e a linha se chama falta do usuário. Enquanto o aviso não muda de coluna, ele não existe para quem lê o relatório.

E existe a prova negativa, feita com a ferramenta que toda clínica brasileira já tem na mão. Jonathan Rodrigues e colegas sortearam 998 pacientes de subespecialidades pediátricas do Hospital Universitário Cassiano Antônio Moraes, em Vitória, entre março e dezembro de 2019: 579 receberam mensagem de WhatsApp 48 horas antes, com data, hora, local e especialidade, e 419 não receberam nada (Revista Cubana de Información en Ciencias de la Salud, 2020).

A ausência foi 24,0% no grupo da mensagem, 139 de 579, e 25,5% no controle, 107 de 419, com p de 0,580.

A mensagem era de mão única: o paciente não conseguia responder. Os próprios autores registram isso entre as limitações, e explicam que a intenção era abrir um canal em que o participante pudesse cancelar, mas o serviço não tinha como realocar a consulta cancelada. O lembrete que não aceita resposta manda a informação para o lado que já sabia.

O que essa evidência não diz

Que a nossa varredura esgota o assunto. Procuramos no PubMed e no Europe PMC em 28 de agosto de 2026 por lista de chamada, lista de reserva e lista de espera cruzadas com consulta cancelada e taxa de preenchimento, e a busca por título e resumo voltou vazia. Ela também não teria trazido o Fast Pass, que é o segundo número deste artigo: naquele estudo, lista de espera e vaga liberada aparecem só no corpo do texto, nunca no título nem no resumo. O que a busca mediu foi o alcance da própria busca, e é assim que uma frase de ausência costuma quebrar.

Que os números de fornecedor valem alguma coisa. Os percentuais de preenchimento de lista de espera que circulam em material comercial não têm fonte primária que se possa abrir, com autor, denominador e método, e por isso não entram aqui.

Que o lembrete faz o paciente vir. Em Dublin o efeito havia sumido dois anos e meio depois. Na Dinamarca a falta caiu à metade e o cancelamento tardio não se moveu. Em Vitória, sem canal de resposta, não houve efeito nenhum. O que o lembrete produz de forma consistente é aviso, não presença.

Que o mecanismo chileno está medido. Boone e colegas não mediram cancelamento nenhum: mediram consulta, e escreveram que o ganho se deve provavelmente a cancelamento e remarcação em tempo hábil. A cadeia entre o SMS e a consulta do paciente agudo é inferência dos autores, e eles a declaram como tal.

Que lemos tudo por inteiro. Três fontes deste artigo estão atrás de paywall e não abriram para nós: o ensaio de Hashim, a análise de Monahan e Fabbri e o estudo de Dublin. Os números delas vêm do resumo publicado pelos próprios autores, não da tabela do corpo do artigo, e essa é uma camada de conferência a menos do que temos nas outras. No caso de Wolthers, que abrimos inteiro, os números aqui são os da Tabela 1: o resumo do próprio artigo traz 163 faltas onde a tabela traz 196, e o corpo do texto traz 4.556 agendamentos onde a tabela traz 4.566. Só os valores da tabela fecham a aritmética dos percentuais.

Que os números são da sua clínica. As bases mais finas primeiro: o intervalo entre aviso e consulta saiu do ambulatório de um único cardiologista, com cerca de 900 consultas. O ensaio de Genebra tem 2.123 pacientes de um hospital universitário suíço, com população majoritariamente vulnerável. O de 2001 tem 903 pessoas numa clínica-escola. A escada de aceite de oferta é de um sistema californiano com portal do paciente já em uso, e a lista de reserva é de bloco cirúrgico do serviço público inglês. São ordens de grandeza, não referências de mercado.

O que fica de pé: o aviso quase sempre chega tarde, a vaga que ele devolve raramente encontra dono novo, e quase ninguém mede nem uma coisa nem outra.

A conta que a fonte autoriza

Só um estudo deste artigo publicou a conta inteira, e é o de Genebra. Em três meses, o braço de lembrete custou 2.566 euros: 61 euros de ligação, a 8 cêntimos cada, 8 euros de SMS, ao mesmo preço, 157 euros de carta, a 84 cêntimos, e 2.340 euros de salário do assistente de pesquisa que operava tudo.

O salário é 91% do custo. A telecomunicação inteira é menos de 9%.

Do lado do benefício, 55 consultas a mais, com a consulta valorada em 80 euros, somaram 4.412 euros na tabela publicada, e o líquido dos três meses ficou em 1.846 euros. Dessas 55, quarenta são consultas que aconteceram porque o paciente foi lembrado. Quinze são vagas devolvidas que acharam dono novo.

O gargalo nunca foi o preço da mensagem. É o minuto de quem opera a vaga depois que ela vaga. Disparar lembrete é barato e já está resolvido em qualquer clínica. Oferecer a vaga liberada a quem topa vir amanhã é outra coisa, e é onde os 2.340 euros moram.

A medida que responde isso na sua agenda cabe numa folha e em duas semanas. Para cada consulta que não aconteceu, três colunas: houve aviso, quantas horas antes do horário marcado, e a vaga foi ocupada por outra pessoa. A primeira separa falta de cancelamento, que é a distinção que o sistema de Gaspar apagava. A segunda é o intervalo que Monahan e Fabbri mediram, e é ela que diz se a vaga tinha chance. A terceira é a que ninguém publicou até 2022, e é a que decide se vale montar qualquer lista.

São 16h20 e a mensagem chegou. A pergunta não é se a recepção agradeceu. É quantas horas faltam para as 9h de amanhã, e quem já está esperando por elas.

Perguntas rápidas sobre cancelamento de consulta

As dúvidas que chegam junto com o assunto, respondidas em um parágrafo. Os números são os mesmos do artigo, das mesmas fontes.

Cancelamento é melhor que falta para a clínica?

Só quando chega com tempo. No ensaio de Genebra, das 54 vagas abertas por cancelamento durante a ligação de lembrete feita 48 horas antes, 15 foram realocadas. Já sobre os cancelamentos com menos de 24 horas do mesmo estudo, os autores nem registraram a realocação, por considerarem a ocorrência muito rara.

Com quanta antecedência o paciente precisa avisar que não vem?

Depende do tempo que a sua clínica leva para reocupar, e é assim que as fontes definem. O centro de check-up de Taipé chama de tardio o cancelamento nos sete dias anteriores, porque abaixo disso não consegue preencher. Uma clínica de dor de Miami usa um dia útil. Genebra mediu realocação com 48 horas.

Lista de espera funciona para preencher consulta cancelada?

Preenche perto de um terço. Em Genebra, 15 das 54 vagas abertas foram realocadas, 27,8%. Na lista automatizada da Sutter Health, 14.717 ofertas aceitas para 44.792 vagas oferecidas, 32,9% pela nossa divisão. Em bloco cirúrgico inglês, a lista sozinha recuperou 2,25 horas de sala por mês de 27 perdidas.

Mandar lembrete aumenta o cancelamento?

Aumenta, e é o objetivo. No ensaio randomizado de 2001, o cancelamento subiu de 9,9% para 17% entre quem recebeu ligação, enquanto a falta caía de 26% para 19%. O cancelamento com antecedência é a falta convertida em aviso, e é o que faz a vaga voltar para a agenda.

Lembrete por WhatsApp reduz falta de paciente?

Sozinho, não. No único ensaio randomizado brasileiro que achamos, com 998 pacientes de um hospital universitário do Espírito Santo em 2019, a mensagem 48 horas antes deixou a ausência em 24,0% contra 25,5% do controle, com p de 0,580. A mensagem era de mão única, e o serviço não tinha como realocar a vaga cancelada.

Referências

  1. Hashim, M. J.; Franks, P.; Fiscella, K. Effectiveness of telephone reminders in improving rate of appointments kept at an outpatient clinic: a randomized controlled trial. Journal of the American Board of Family Practice, 2001.
  2. Chariatte, V. et al. Missed appointments in an adolescent outpatient clinic: descriptive analyses of consultations over eight years. Swiss Medical Weekly, 2007.
  3. Junod Perron, N. et al. Reduction of missed appointments at an urban primary care clinic: a randomised controlled study. BMC Family Practice, 2010.
  4. Menendez, M. E.; Ring, D. Factors associated with non-attendance at a hand surgery appointment. Hand, 2015.
  5. Sivanesan, E. et al. Modified open-access scheduling for new patient evaluations at an academic chronic pain clinic increased patient access to care, but did not materially reduce their mean cancellation rate. Journal of Clinical Anesthesia, 2017.
  6. Monahan, K.; Fabbri, D. Schedule-based metrics for the evaluation of clinic performance and potential recovery of cancelled appointments. International Journal of Medical Informatics, 2018.
  7. Moran, L.; O’Loughlin, K.; Kelly, B. D. The effect of SMS (text message) reminders on attendance at a community adult mental health service clinic. Irish Journal of Medical Science, 2018.
  8. Antoniou, V.; Burke, O.; Fernandes, R. Introducing a reserve waiting list initiative for elective general surgery at a District General Hospital. BMJ Open Quality, 2019.
  9. Wolthers, O. D. Differential effects of text message reminders on non-attendance and late cancellations in a paediatric outpatient clinic. Danish Medical Journal, 2019.
  10. Chung, S. et al. Patient-centric scheduling with the implementation of health information technology to improve the patient experience and access to care. Journal of Medical Internet Research, 2020.
  11. Cordeiro, T. S. et al. Não comparecimento às consultas especializadas é um resultado indesejado do processo de regulação. Arquivos Catarinenses de Medicina, 2020.
  12. Rodrigues, J. G. et al. Impacto das mensagens de texto para redução do absenteísmo às consultas especializadas: um estudo aleatorizado. Revista Cubana de Información en Ciencias de la Salud, 2020.
  13. Ho, T. W. et al. Overbooking for physical examination considering late cancellation and set-resource relationship. BMC Health Services Research, 2021.
  14. Boone, C. E. et al. How scheduling systems with automated appointment reminders improve health clinic efficiency. Journal of Health Economics, 2022.

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Foto de Rodolfo Franzim

Rodolfo Franzim

Cofundador da Hiperclini, empresário há quase dez anos. Toca por dentro a operação de uma clínica e fundou uma auditoria de marketing que já atendeu mais de 300 clientes. Escreve sobre venda consultiva, negociação e growth marketing pra quem toca clínica no Brasil.