A nota cai quando a agenda aperta
Alguém leu 712 avaliações de médicos e classificou item por item. O pior de todos é o tempo de espera. E o que mais mexe na nota é o tempo dentro da sala.

Rodolfo Franzim
· 11 min de leitura

A clínica resolve cuidar da reputação. Pede avaliação no fim da consulta, imprime o QR code na recepção, comemora cada cinco estrelas e sofre com cada uma.
E trata a nota como se ela fosse sobre o médico.
As fontes deste artigo foram publicadas entre 2007 e 2019, e o que elas medem é outra coisa. A nota é da visita inteira, não da consulta. O artigo anterior mostrou que a nota é o último filtro na escolha do paciente. Este mostra de que ela é feita.
Alguém leu 712 avaliações e classificou item por item
Andrea López, Alissa Detz, Neda Ratanawongsa e Urmimala Sarkar juntaram 712 avaliações públicas de 445 médicos de atenção primária de Atlanta, Chicago, Nova York e São Francisco, tiradas do ratemds.com (397 delas) e do Yelp (315), e leram uma a uma (Journal of General Internal Medicine, 2012).
Cada avaliação foi codificada em três domínios: o jeito do médico, a competência técnica do médico e o que os autores chamaram de questões de sistema, que é tudo o que existe em volta do encontro. Equipe, marcação, telefone, espera, ambiente.
No conjunto, 63% das avaliações eram positivas. A parte interessante está em abrir esse número por item.
O médico é bem avaliado, e por larga margem
Nas menções ao próprio médico, a aprovação é alta e sobe conforme o item fica específico. Empatia apareceu em 258 avaliações, com 69% positivas. Tempo dedicado ao paciente durante a consulta, em 161, com 75%. Escutar, em 111, com 88%. Explicar o tratamento, em 49, com 94%.
Quando o paciente fala do médico, ele fala bem em quase todos os itens. O único que fica no meio é não se sentir julgado, com 50% de aprovação em 44 menções.
O que derruba está fora da sala
No domínio de sistema o desenho vira outro. Equipe da recepção apareceu em 175 avaliações, o item mais citado de todos, com 60% positivas. Facilidade de conseguir a consulta, em 69, com 57%. Ambiente do consultório, em 50, com 56%.
E aí vem o pior item de toda a análise.
39%
Seis em cada dez menções ao tempo de espera não são elogio. Compare com os 94% de aprovação de quem falou da explicação do tratamento e fica claro onde a estrela some. O paciente elogia o médico e reclama do relógio. Esta casa já mediu a espera pela régua do paciente, e aqui ela reaparece do outro lado, escrita e pública.
Só que a espera sozinha não explica a nota
Roger Anderson, Fabian Camacho e Rajesh Balkrishnan cruzaram tempo de espera, tempo de consulta e satisfação em 5.003 avaliações de médicos de atenção primária americanos feitas num site de notas (BMC Health Services Research, 2007). A espera média relatada foi de 25,2 minutos, e um quarto dos pacientes esperou mais de meia hora.
Espera maior puxa a nota para baixo, e isso deu significância. Só que o tempo com o médico puxa muito mais forte: correlação de 0,51 contra 0,31 da espera.
28%
O pior cruzamento da agenda
Os autores foram atrás de uma pergunta melhor: o que acontece com a nota quando a espera longa encontra a consulta curta? Porque numa agenda apertada as duas coisas andam juntas.
18,0 contra 78,7
A espera de meia hora não decidiu nada sozinha. O que decidiu foi o que veio depois dela. E o teto do estudo confirma o desenho: quem esperou menos de 15 minutos e teve consulta longa deu nota média de 92,7.
Encurtar a espera cortando a consulta é o pior negócio da agenda. É a conclusão explícita dos autores, e cabe do lado da grade: apertar o intervalo para atender mais gente melhora um número e destrói o outro. Cada minuto de consulta comprado de volta tem preço, e este blog já mediu o que a pressa cobra dentro da sala.
A primeira consulta já entra pontuando abaixo
O mesmo modelo trouxe um coeficiente que passa despercebido: ser a primeira visita àquele consultório derrubou a nota do médico em 12,6 pontos, com todo o resto ajustado. E o efeito da espera é ainda pior em quem chega pela primeira vez.
O paciente novo avalia mais duro e é justamente ele quem a clínica está tentando conquistar. Ele também é quem mais falta, o que faz da primeira consulta o horário mais caro da grade em dois sentidos ao mesmo tempo.
Na Alemanha, a lista de queixas é a mesma
Martin Emmert, Florian Meier, Ann-Kathrin Heider, Christoph Dürr e Uwe Sander sortearam 3.000 comentários escritos em 2012 no jameda, o maior site alemão de avaliação de médico, e classificaram cada um (Health Policy, 2014). Ali, 80% dos comentários eram positivos, 4% neutros e 16% negativos, com média de 45,3 palavras. O tema mais citado foi a competência profissional do médico, em 63% dos comentários, seguido da simpatia, em 38%.
A recomendação que os autores tiram dos próprios dados é curta e conhecida: os médicos deveriam olhar para o tempo dedicado ao paciente, para o tempo de espera e para levar o paciente a sério. Outro país, outro site, outra década de plataforma, mesma lista.
A média é alta, e é isso que torna a nota frágil
Bassam Kadry, Larry Chu, Bayan Kadry, Danya Gammas e Alex Macario pegaram os dez sites de avaliação de médico mais visitados em 1º de outubro de 2010 e analisaram 4.999 avaliações (Journal of Medical Internet Research, 2011). Os sites usavam 35 dimensões diferentes de avaliação, com mediana de 4,5 perguntas cada.
3,84 de 5
Y. Alicia Hong, Chen Liang, Tiffany Radcliff, Lisa Wigfall e Richard Street revisaram 63 estudos sobre avaliações de pacientes na internet, com busca fechada em janeiro de 2019, e acharam duas coisas que precisam andar juntas (Journal of Medical Internet Research, 2019). A maioria das avaliações é positiva. E elas têm alta correlação com as pesquisas tradicionais de experiência do paciente, enquanto a correlação com desfecho clínico é baixa.
A nota mede experiência, e experiência é operação. Ela não sabe dizer se o diagnóstico estava certo, e nunca prometeu isso.
O que fazer com isso na segunda-feira
- Meça a visita, não a consulta. O relógio que decide a nota começa na porta e termina na saída. É a mesma régua que o paciente usa quando escreve.
- Nunca compre espera curta com consulta curta. Entre quem esperou de 30 a 60 minutos, a nota foi de 18,0 com consulta de menos de 5 minutos e de 78,7 com mais de 10. Encurtar a conversa para recuperar o atraso é a troca que mais custa.
- Trate a recepção como parte da avaliação do médico. A equipe foi o item mais citado de todos, 175 de 712 avaliações, e quatro em cada dez dessas menções não eram elogio. Quem atende na porta assina a nota do consultório.
- Dê folga na grade para o paciente novo. A primeira visita já entra 12,6 pontos abaixo, e a espera pesa ainda mais nela. Encaixar o paciente novo no horário mais apertado do dia é escolher começar perdendo.
- Conserte a espera antes de pedir avaliação. Pedir nota amplifica a experiência que já existe. Se o item mais reclamado ainda está lá, a campanha de avaliação vai publicá-lo.
- Leia o texto, não a estrela. A estrela diz que algo aconteceu; o comentário diz o quê. Nos dados de 2012, a maior parte das avaliações genéricas não explicava nada, e só as específicas apontavam a causa.
O que essa evidência não diz
Nada aqui é ensaio, e nenhuma dessas medições é brasileira.
- As 712 avaliações de López são de 2009, de quatro cidades americanas, e o estudo é qualitativo: ele conta menções, não mede efeito. As porcentagens dizem o tom de quem escreveu sobre um item, não o peso daquele item na nota final.
- Os 5.003 pacientes de Anderson são amostra de conveniência de um site de avaliação, recrutada por rádio e por grupos de pacientes. Quem responde a esse tipo de convite não é o paciente médio, e os tempos são de memória, não de cronômetro.
- O estudo alemão de 3.000 comentários está em revista paga e só conseguimos ler o resumo. Os números citados aqui são os que os próprios autores publicaram nele, e não abrimos as tabelas.
- Kadry mediu como os sites eram em 2010, com dez plataformas que hoje não são as mesmas. O que envelhece ali é a lista de sites; a média alta continua aparecendo em revisão de 2019.
- A correlação baixa entre avaliação e desfecho clínico corta nos dois sentidos: nota boa não é atestado de qualidade técnica, e nota ruim também não prova erro.
- Não encontramos nenhuma análise brasileira do conteúdo de avaliações de clínica em plataforma de mapa, que é o formato que a clínica daqui enfrenta. Transpor de site de médico americano para ficha de mapa brasileira é leitura nossa, declarada como leitura.
Perguntas rápidas
O que mais pesa na avaliação de uma clínica?
O tempo com o médico. Numa análise de 5.003 avaliações americanas, ele explicou 28% da variação da nota, quase três vezes o peso do tempo de espera. A espera pesa, mas o estrago maior vem da combinação: esperar muito e ser atendido depressa.
O tempo de espera derruba a nota da clínica?
Derruba, e é o item mais reclamado por escrito. Em 712 avaliações lidas uma a uma, só 39% das 105 menções ao tempo de espera eram positivas, o pior índice do estudo inteiro. Nenhum outro item teve maioria de reclamação.
A recepção influencia a avaliação do médico?
Influencia, e é o assunto mais citado. A equipe apareceu em 175 das 712 avaliações analisadas, mais que qualquer outro item, com 60% de menções positivas. Quem escreve sobre o médico costuma escrever sobre quem atendeu antes dele.
Vale a pena pedir avaliação aos pacientes?
Vale, depois de arrumar o que eles vão avaliar. As notas costumam ser altas, com média de 3,84 em 5 numa análise de 4.999 avaliações, então o volume ajuda. Pedir nota com a espera mal resolvida só publica mais rápido o problema que já existe.
Avaliação online mede a qualidade do médico?
Mede experiência, não desfecho. Uma revisão de 63 estudos achou alta correlação entre avaliações na internet e pesquisas tradicionais de experiência do paciente, e correlação baixa com desfecho clínico. A nota é um termômetro de operação, e é assim que ela deve ser lida.
Referências
- Anderson, R. T.; Camacho, F. T.; Balkrishnan, R. Willing to wait?: the influence of patient wait time on satisfaction with primary care. BMC Health Services Research, 2007.
- Kadry, B. et al. Analysis of 4999 online physician ratings indicates that most patients give physicians a favorable rating. Journal of Medical Internet Research, 2011.
- López, A. et al. What patients say about their doctors online: a qualitative content analysis. Journal of General Internal Medicine, 2012.
- Emmert, M. et al. What do patients say about their physicians? An analysis of 3000 narrative comments posted on a German physician rating website. Health Policy, 2014.
- Hong, Y. A. et al. What do patients say about doctors online? A systematic review of studies on patient online reviews. Journal of Medical Internet Research, 2019.
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Rodolfo Franzim
Cofundador da Hiperclini, empresário há quase dez anos. Toca por dentro a operação de uma clínica e fundou uma auditoria de marketing que já atendeu mais de 300 clientes. Escreve sobre venda consultiva, negociação e growth marketing pra quem toca clínica no Brasil.