Vendas e atendimento

O recado que ninguém retorna

A clínica paga caro para o contato chegar e depois deixa ele esperando. Fora da saúde, alguém cronometrou 2.241 empresas atendendo um pedido. Dentro, alguém contou quantos recados voltam.

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Rodolfo Franzim

· 11 min de leitura

Parede de caixas de correio em grade, cada porta fechada com uma fechadura redonda no centro
Foto: KC Shum (Unsplash)

A clínica paga para ser encontrada. Perfil no mapa, anúncio, o paciente antigo que indicou. Tudo isso trabalha para produzir uma coisa só: alguém pedindo uma consulta. Quando esse alguém finalmente escreve, o pedido entra numa fila que ninguém cronometra.

E envelhece ali.

As fontes deste artigo foram publicadas entre 1998 e 2022, e todas apontam para o mesmo ponto cego. O contato de paciente novo é a coisa mais perecível da clínica. Este blog já mostrou que o paciente novo é o horário mais frágil da agenda e que ele quase sempre já tem uma clínica. Falta olhar o que acontece entre o pedido dele e a primeira resposta da sua recepção.

Alguém cronometrou 2.241 empresas atendendo um pedido

James Oldroyd, Kristina McElheran e David Elkington enviaram um pedido de teste pelo site de 2.241 empresas americanas e mediram quanto tempo cada uma levava para responder (Harvard Business Review, 2011). Foram 37% respondendo dentro de uma hora, 16% entre uma e 24 horas, 24% depois de mais de um dia. E 23% não responderam nunca.

42 horas

o tempo médio de resposta entre as empresas que responderam em até 30 dias. Das 2.241, 586 responderam em menos de cinco minutos e 512 não responderam nada.Oldroyd, McElheran e Elkington, Harvard Business Review, 2011

A tabela do artigo tem um formato que vale mais que a média: das 2.241 empresas, 729 responderam na primeira meia hora e 1.050 levaram mais de um dia ou não responderam nunca. Entre oito e doze horas depois do pedido, sete empresas. Sete. Ou a resposta sai quase na hora, ou ela não sai mais.

Duas ressalvas antes de seguir. A Harvard Business Review é revista de negócios, não periódico com revisão de pares. E a própria assinatura do artigo informa que um dos três autores era o presidente da empresa que vendia software de resposta a contatos. O desenho é simples e o número é público, então ele entra aqui com o crachá na mão.

A validade do pedido se mede em minutos

Os mesmos autores citam um segundo levantamento, esse com 1,25 milhão de contatos recebidos por 29 empresas de consumo e 13 empresas B2B nos Estados Unidos. A comparação foi entre quem tentou falar com a pessoa dentro da primeira hora e quem tentou depois.

7 vezes

mais chance de conversar de verdade com quem pediu, tentando dentro da primeira hora em vez de uma hora depois. Contra quem esperou 24 horas, mais de 60 vezes.Oldroyd, McElheran e Elkington, Harvard Business Review, 2011

Nada disso foi medido em clínica. É contato comercial americano de antes de 2011, num mercado cujos maiores vendedores de contato, no quadro do próprio artigo, eram seguro, automóvel e empréstimo. E o desfecho ali é conversa com um decisor, não consulta marcada. O que viaja para cá é o formato do relógio, não a taxa.

Na saúde, ninguém cronometrou a hora. Mediram o silêncio

Monica Malowney, Sarah Keltz, Daniel Fischer e J. Wesley Boyd ligaram para 360 psiquiatras listados no diretório de um grande plano de saúde, em Boston, Houston e Chicago, se passando por pacientes que queriam marcar (Psychiatric Services, 2015). Na primeira rodada de ligações, conseguiram falar com 119 deles, 33%.

36%

das 216 ligações sem resposta tiveram retorno. Duas em cada três morreram na secretária eletrônica de um consultório que o diretório do plano anunciava como disponível.Malowney, Keltz, Fischer e Boyd, Psychiatric Services, 2015

Depois de duas rodadas, os pesquisadores tinham 93 consultas marcadas entre os 360 nomes, 26%. A segunda rodada diz o resto: quem insistiu conseguiu. O paciente de verdade quase nunca faz a segunda rodada com a mesma clínica, porque a lista dele tem outros nomes.

Cinco anos depois, em outra cidade, o mesmo buraco

Nicole Tenner, Medha Reddy e Adam Block repetiram o exercício em Nova York, com 192 psiquiatras da rede de um plano, ligando em horário comercial entre dezembro de 2019 e fevereiro de 2020, com uma segunda tentativa em outro dia quando ninguém atendia (Community Mental Health Journal, 2022).

50,5%

das 192 ligações terminaram sem nenhuma resposta. Seis viraram consulta marcada, 3,1% do diretório inteiro.Tenner, Reddy e Block, Community Mental Health Journal, 2022

O restante da tabela é a burocracia de sempre: 36 não aceitavam paciente novo, 17 não estavam mais na rede, 14 só atendiam internados, oito exigiam ficha preenchida antes. Só que o item maior de todos, o que sozinho vale metade da lista, é ninguém ter voltado a falar.

O canal muda a cada década e a taxa de silêncio não

Eysenbach e Diepgen enviaram, em dezembro de 1997 e janeiro de 1998, o e-mail de um paciente fictício com um problema de pele para 58 médicos e responsáveis por sites de medicina (JAMA, 1998). Vinte e nove responderam, exatos 50%.

Correio eletrônico em 1998, telefone em 2015, telefone de novo em 2020. Metade some em todos.

E o canal de hoje já está escolhido, pelo menos no Brasil. O Panorama Mobile Time/Opinion Box ouviu 2.073 brasileiros com smartphone entre 13 e 27 de julho de 2022, com margem de erro de 2,1 pontos percentuais (Mensageria no Brasil, agosto de 2022). Entre os usuários de cada app, o WhatsApp é o mais usado para falar com marcas e empresas, com 81%, contra 66% do Instagram Direct. E a finalidade que mais aparece no WhatsApp é justamente a do paciente que quer marcar: tirar dúvidas e pedir informações, com 80%.

O paciente já escolheu o canal. O relógio quem escolhe é a clínica. A recepção que não atende o telefone hoje é a mesma que deixa a mensagem sem resposta, e este blog já mediu quanta gente some antes de virar falta.

Uma clínica resolveu isso prometendo prazo, não velocidade

Lisa O'Brien e doze colegas do Bone and Joint Institute do Penn State Hershey padronizaram o tratamento das ligações de paciente em clínicas cirúrgicas ambulatoriais e mediram 25 dias de operação, de 18 de março a 11 de abril de 2013 (Journal of Patient Experience, 2017). Foram 1.021 ligações classificadas na hora em que entravam: 263 urgentes e 758 não urgentes.

Das 263 urgentes, 242 foram resolvidas em até uma hora, 92%. Das não urgentes, 91,5% ficaram dentro do prazo que tinha sido prometido ao paciente no momento da ligação.

O que eles arrumaram não foi a velocidade, foi a promessa. Cada tipo de pedido ganhou um prazo declarado em voz alta para quem ligou, e o trabalho da equipe virou cumprir o prazo que ela mesma tinha dito. Quem escuta “a gente te responde hoje até as seis” para de ligar para a próxima clínica da lista.

A conta que a fonte autoriza

Nenhum estudo aqui permite dizer quantos reais a sua clínica perde por mês em recado não retornado. As medições são de psiquiatria americana dentro de rede de plano, e a taxa delas não é a sua.

O que a evidência autoriza é uma régua, e ela cabe numa semana de trabalho. Anote a hora em que cada contato de paciente novo chega e a hora da primeira resposta humana. No fim da semana você tem três números: quantos contatos chegaram, quantos foram respondidos e qual foi o tempo mediano de resposta. O terceiro número costuma ser o susto, e o segundo costuma ser pior.

O valor de cada contato perdido você já tem, porque é o preço da sua consulta. E o custo de manter a estrutura aberta esperando esse paciente também já está pago: o minuto de sala é comprado por mês, antes de qualquer um marcar.

O que fazer na segunda-feira

  • Cronometre antes de mudar. Uma semana de anotação de hora de chegada e hora da resposta vale mais que qualquer benchmark de blog. Sem esse número, toda melhoria vira opinião.
  • Prometa prazo e cumpra o que prometeu. Foi o que sustentou 91,5% dos retornos não urgentes no Penn State. Prazo dito em voz alta segura o paciente; silêncio manda ele para a próxima clínica.
  • Marque no mesmo contato, sem pedir para ligar depois. Cada devolução de bola é uma chance de perder o paciente. Quem pede “ligue amanhã para confirmar” está terceirizando a própria venda para quem tem menos motivo para insistir.
  • Dê dono ao canal, com nome e horário. WhatsApp de clínica sem responsável é secretária eletrônica com aparência moderna. Se ninguém é cobrado pelo tempo de resposta, ele é o tempo que sobrar.
  • Faça a mensagem automática dizer quando. “Recebemos sua mensagem” não é resposta. “Respondemos até as 10h de amanhã” é, e ela vira uma dívida que a equipe precisa pagar.
  • Conte o contato que não virou consulta. A agenda mostra quem entrou. O buraco desta semana está na conversa que nunca teve segunda mensagem, e ele não aparece em relatório nenhum enquanto ninguém contar.

O que essa evidência não diz

Este é um artigo montado com peças de dois mundos, e o encaixe é leitura nossa.

  • O artigo não abre os 2.241 sites por setor. Ele cita saúde entre as áreas que passaram a comprar contato pela internet, e é só isso que dá para dizer: ninguém separou ali o que a clínica fez do que fez a seguradora.
  • As sete vezes e as sessenta vezes são de um segundo estudo, descrito dentro do texto da revista e não publicado em detalhe ali. O desfecho é conversa qualificada, não consulta marcada nem receita.
  • Malowney e Tenner medem psiquiatria ambulatorial americana dentro de diretório de plano, com duas tentativas de ligação. Eles contam silêncio, não cronometram resposta, e diretório de plano tem um defeito próprio: parte dos nomes já não atende ali há anos.
  • O e-mail de 1998 pedia conselho médico, não agendamento, e foram 58 endereços. É um retrato antigo de um comportamento, não uma taxa para citar hoje.
  • A pesquisa de mensageria é levantamento de mercado com painel online, feito por uma parceria comercial entre um site de notícias e uma empresa de pesquisa. Ela diz o que o brasileiro usa, e não o que a clínica brasileira responde.
  • Não encontramos nenhum estudo que ligue tempo de resposta a consulta marcada em clínica ambulatorial. O mais perto disso na nossa própria bibliografia é a segunda rodada de Malowney, que mede persistência de quem liga, e não velocidade de quem atende.

Perguntas rápidas

Em quanto tempo a clínica deve responder um paciente no WhatsApp?

Não existe número medido em clínica. Fora da saúde, a comparação de 1,25 milhão de contatos comerciais mostrou sete vezes mais chance de conversa quando a resposta sai na primeira hora. O prazo que funciona é o que a clínica consegue cumprir todo dia e diz ao paciente na primeira mensagem.

Quantos pacientes se perdem por falta de resposta?

Nas duas medições com pacientes simulados, o silêncio foi o maior item. Em Nova York, 50,5% das 192 ligações não tiveram resposta nenhuma. Em três cidades americanas, apenas 36% das 216 ligações sem atendimento foram retornadas. Sua taxa é diferente, mas você só descobre contando.

Responder fora do horário comercial resolve?

Ajuda menos que responder dentro dele. As duas medições de acesso ligaram em horário comercial e mesmo assim metade dos contatos morreu. Antes de estender o expediente, vale garantir que a mensagem que chegou às 14h de terça teve resposta ainda na terça.

Mensagem automática substitui a resposta?

Só quando ela carrega um prazo. No estudo do Penn State, o que organizou 1.021 ligações em 25 dias foi dizer a cada paciente quando ele seria retornado, e 91,5% dos casos não urgentes ficaram dentro do prometido. Aviso sem prazo apenas confirma que a mensagem entrou numa fila.

Como medir o tempo de resposta da minha clínica?

Por uma semana, anote a hora de chegada de cada contato de paciente novo e a hora da primeira resposta humana. No fim, calcule três números: contatos recebidos, contatos respondidos e tempo mediano de resposta. Repita o exercício um mês depois para saber se a mudança pegou.

Referências

  1. Eysenbach, G.; Diepgen, T. L. Responses to unsolicited patient e-mail requests for medical advice on the World Wide Web. JAMA, 1998.
  2. Oldroyd, J. B.; McElheran, K.; Elkington, D. The short life of online sales leads. Harvard Business Review, 2011.
  3. Malowney, M.; Keltz, S.; Fischer, D.; Boyd, J. W. Availability of outpatient care from psychiatrists: a simulated-patient study in three U.S. cities. Psychiatric Services, 2015.
  4. O'Brien, L. K. et al. Improving responsiveness to patient phone calls: a pilot study. Journal of Patient Experience, 2017.
  5. Mobile Time; Opinion Box. Panorama Mobile Time/Opinion Box: mensageria no Brasil. Mobile Time, agosto de 2022.
  6. Tenner, N. L.; Reddy, M.; Block, A. E. Secret shopper analysis shows getting psychiatry appointment in New York City is well kept secret. Community Mental Health Journal, 2022.

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Foto de Rodolfo Franzim

Rodolfo Franzim

Cofundador da Hiperclini, empresário há quase dez anos. Toca por dentro a operação de uma clínica e fundou uma auditoria de marketing que já atendeu mais de 300 clientes. Escreve sobre venda consultiva, negociação e growth marketing pra quem toca clínica no Brasil.