Quem trabalha não cabe na agenda da clínica
Fomos ao microdado da PNS 2019 atrás de uma pergunta que não encontramos tabulada nas publicações do IBGE nem no SIDRA. Entre os ocupados que precisaram de atendimento e não procuraram, horário incompatível trava 24,6% e falta de dinheiro, 15,6%. Entre desempregados, o sinal se inverte.

Rodolfo Franzim
· 10 min de leitura

O paciente que não marcou não deixa rastro. Ele não vira falta, não vira reclamação, não aparece em relatório nenhum. A clínica termina o mês achando que atendeu todo mundo que queria ser atendido.
Não atendeu.
Este blog já mediu três degraus dessa escada. Em a porta da clínica é um telefone ocupado o paciente ligou e não conseguiu falar; em quem marca a consulta decide se ela acontece ele falou e saiu sem data; em ninguém falta porque quer ele marcou e não foi. Este texto é o degrau anterior a todos: a pessoa precisou de atendimento e não chegou a procurar.
As fontes deste artigo foram publicadas entre 2015 e 2022. Um dos números não vem de publicação nenhuma: nós o calculamos do microdado público da Pesquisa Nacional de Saúde, porque a pergunta existe no questionário do IBGE e não a encontramos tabulada.
O que trava não é só o preço
Comece pela suspeita mais confortável para a clínica, que é a de que tudo se resolve em dinheiro. Em 2016, o National Health Interview Survey perguntou a mesma população sobre as duas coisas, no mesmo ano e com o mesmo denominador: adultos de 19 a 64 anos com renda familiar de até 138% da linha de pobreza, uma estimativa de 24,5 milhões de pessoas.
Adiaram cuidado por custo 14,9%. Adiaram cuidado por algum motivo não financeiro 15,1%.
15,1% contra 14,9%
Num grupo escolhido justamente por ser pobre, onde o custo deveria decidir sozinho, ele não decide sozinho. E a repartição do lado não financeiro é o que interessa aqui, lembrando que a pesquisa pergunta barreira por barreira e a mesma pessoa pode citar mais de uma: o item que mais aparece é não conseguir uma consulta cedo o bastante, com 7,3%, e o que menos aparece é o consultório não estar aberto quando a pessoa podia ir, com 2,9%. No meio ficam a espera na sala com 6,4%, a falta de transporte com 4,6% e não conseguir falar no telefone com 3,2%.
Guarde essa ordem. Ela vai ser contrariada pelo Brasil e depois reconciliada.
No Brasil, quem trabalha responde outra coisa
A Pesquisa Nacional de Saúde de 2019 tem uma pergunta que quase ninguém viu. À pessoa que declarou não ter procurado serviço de saúde nas duas semanas anteriores, o entrevistador pergunta por quê, e a lista de respostas traz “horário incompatível” e “não tinha dinheiro” como opções separadas, e aceita um motivo só. Ela é a variável J03602 do microdado, e não a encontramos tabulada nas publicações do IBGE nem no SIDRA, o banco de tabelas da casa.
Ela está no microdado, que é público. Fomos lá.
Dos 209,6 milhões de pessoas estimadas, 170.550.591 não procuraram atendimento, e 164.686.920 delas responderam a coisa esperada: não houve necessidade. Sobram 5.863.671 pessoas que deram qualquer outro motivo, e é essa a fila que interessa: é o mais perto de “precisou e não foi” que o questionário permite chegar. Entre elas, o atendimento demorado responde por 24,4%, a falta de dinheiro por 18,0% e o horário incompatível por 14,2%.
A média esconde. Separando pela condição de ocupação, o segundo lugar troca de dono.
24,6% contra 15,6%
Entre os ocupados o horário empata com a demora do atendimento, que fica em 23,7%, e os dois passam o dinheiro com folga. O contraste que fecha o argumento vem de quem não tem emprego: entre os desempregados, o horário cai para 5,7% e a falta de dinheiro sobe para 21,8%. Fora da força de trabalho, 5,0% e 19,6%. Das 831.788 pessoas que declararam horário no país, 642.460 estavam ocupadas, 55.348 tinham menos de 14 anos e o resto se divide entre desempregados e quem está fora da força de trabalho.
Horário incompatível não é preferência de paciente. É jornada de trabalho.Quanto mais o paciente ganha, mais o problema é o horário
A objeção do dono de clínica particular chega exatamente aqui: isso é fila de posto de saúde, não é o meu paciente. O microdado responde, e responde contra a objeção.
Separando os ocupados por faixa de rendimento domiciliar por pessoa, os dois motivos trocam de lugar ao longo da escala.
- Até um salário mínimo por pessoa: horário 20,2% e dinheiro 18,3%. Empatam.
- De um a três salários mínimos: horário 28,1% e dinheiro 12,8%. O horário já é mais que o dobro.
- Acima de três salários mínimos: horário 42,9% e dinheiro 8,3%. O horário é cinco vezes o dinheiro, e é a faixa com a maior incerteza: o intervalo do horário vai de 29,9% a 55,9%.
42,9% contra 8,3%
A faixa de cima é a menor de todas e a de intervalo mais largo, e o motivo não é o número de entrevistas: é o conglomerado. Naquele recorte, a maior parte dos estratos entra com uma unidade de amostragem só, e a incerteza cresce com isso, não com o n. A direção do horário, essa sim, atravessa as sete faixas do IBGE sem uma inversão. Quanto mais o paciente ganha, menos o preço explica a consulta que ele não marcou, e mais o horário explica.
A conta é reproduzível e o método é chato de propósito. Os pesos são os da própria pesquisa, e a margem de erro sai por linearização com o estrato e a unidade primária de amostragem reais, não por amostra simples. O desenho entra inteiro em cada recorte, com contribuição zero fora dele: subconjuntar a amostra ao grupo descarta estratos que ficam com uma unidade só e estreita o intervalo sem motivo. Antes de calcular qualquer coisa nova, reproduzimos dois números que o IBGE já publicou: os 18,6% que procuraram atendimento, que batem em 39.039.016 pessoas, os 73,6% atendidos na primeira procura, e a cobertura de plano de saúde médico por faixa de renda, que o IBGE publica de 2,2% na faixa mais baixa a 86,8% na mais alta. A rotina fecha nos três.
A resposta óbvia é abrir à noite, e ela já foi testada
Se o horário trava quem trabalha, a conclusão parece se escrever sozinha. Ela foi testada em escala nacional, e o resultado não coopera.
Em Greater Manchester, quatro programas receberam £3,1 milhões para abrir consultórios de atenção primária à noite, por volta das 17h às 21h de segunda a sexta com horário variando entre os programas, e nos dois dias do fim de semana. Compararam 56 consultórios com horário estendido contra 469 sem, medindo 2014 contra a média de 2011 a 2013. As idas ao pronto-socorro por problema menor, com o próprio paciente se encaminhando, caíram 26,4%. O total de idas ao pronto-socorro caiu 3,1%, e esse não passou no teste.
£3,1 milhões
Depois disso, quando a oferta ainda era desigual entre consultórios, alguém cruzou a pesquisa nacional de pacientes de janeiro de 2018 e janeiro de 2019 com a quantidade de dias de acesso estendido que cada consultório oferecia. Foram 5.829 consultórios ingleses. O coeficiente da satisfação com os horários disponíveis ficou em 0,0002, com intervalo de confiança de menos 0,0008 a 0,001. É zero com casas decimais, e os autores escrevem exatamente isso: não encontraram associação entre dias de acesso estendido e nenhum dos três indicadores que mediram.
Nenhum dos dois é experimento, e a segunda é associação com efeito fixo de consultório. Mas é o que existe medido em escala, e o sinal é o mesmo: abrir mais horas, sozinho, entrega bem menos do que promete.
O que o paciente compra é rapidez
A reconciliação entre o Brasil e a Inglaterra está num terceiro estudo, que perguntou às pessoas quanto elas pagariam por cada pedaço do atendimento. Responderam adultos em idade de trabalhar, de 18 a 60 anos, sorteados em vinte consultórios da Escócia, da Inglaterra e do País de Gales: 795 pessoas no cenário de diarreia, 797 no de tontura e 793 no de dor no peito.
Esperar uma hora valeu £16,90 na diarreia, £21,42 na tontura e £62,71 na dor no peito. Esperar oito dias valeu menos £50,03, menos £56,75 e menos £146,16. Poder ser atendido a qualquer hora, incluindo noite e fim de semana, em vez de só no horário comercial, valeu £2,66 na tontura e £2,94 na dor no peito, e não foi significativo na diarreia.
£77,68 contra £5,32
Junte as três peças e a contradição some. O que o paciente que trabalha chama de horário incompatível não é a porta fechada às 19h: é não existir vaga numa hora que ele consegue cumprir. Abrir à noite e manter a mesma espera de três semanas resolve o horário e não resolve o problema. Foi o que Manchester comprou por £3,1 milhões.
A conta que a sua clínica tem e não olha
Nenhum número acima é da sua cidade, e o brasileiro mistura rede pública e privada. O que atravessa é a pergunta, e ela cabe em duas linhas que a sua agenda já responde.
- Quantas das suas vagas caem fora do horário em que seu paciente está trabalhando? Conte as vagas de uma semana cheia e separe as que começam antes das 8h, depois das 18h ou no sábado. É a oferta que quem trabalha consegue cumprir, e na maioria das clínicas ela é zero.
- Quantos dias até a sua primeira vaga livre? Não a média do mês: o número de hoje, para um paciente novo. Como a vaga de daqui a 40 dias já nasce em risco mostrou, esse intervalo tem custo próprio depois de marcado. A evidência acima diz que ele cobra antes, de quem nem chega a ligar.
A ordem importa, e ela é contraintuitiva. Se a sua primeira vaga livre está a três semanas, abrir das 19h às 21h só move de lugar uma fila que continua do mesmo tamanho. Encurtar a espera é o que fazer hoje o trabalho de hoje já tratou, e é o que vem primeiro. Horário estendido é o segundo passo, e ele rende quando existe vaga dentro dele.
O que essa evidência não diz
Ela não diz que preço não importa. Na fila brasileira inteira, a falta de dinheiro é 18,0% e continua sendo o segundo maior motivo; entre desempregados ela sobe para 21,8%, atrás só da demora. Este blog já mostrou em o paciente não compara preço, ele pergunta que a conta do valor é outra discussão, e ela continua de pé.
Ela também não diz que o brasileiro que não procurou atendimento é seu cliente. A PNS mede a população inteira, com rede pública e privada juntas, e quem responde “horário incompatível” pode estar falando de um posto de saúde. Vale o mecanismo, não a taxa.
O número americano tem escopo estreito de propósito: são adultos de baixa renda, e é isso que torna o empate interessante, não generalizável. As duas medições inglesas não são experimentos, e a de 2022 é associação. O experimento de escolha mede o que a pessoa diz que pagaria, não o que ela paga.
E fica um achado de lado que merece artigo próprio. O IBGE publica que 73,6% foram atendidos na primeira procura e que 86,1% conseguiram atendimento em algum momento. O que não vai a tabela é a repartição do meio: dos que procuraram, 24,0% saíram com consulta agendada para outro dia ou outro local, e 2,4% não foram atendidos naquela primeira ida. Quem compara os 73,6% com os 95,3% de 2013 está comparando questionários diferentes, porque a opção do agendamento não existia antes.
Perguntas rápidas
Por que o paciente não marca consulta?
Entre os brasileiros que precisaram e não procuraram, o motivo mais citado é a demora do atendimento, com 24,4%, seguida de falta de dinheiro, com 18,0%, e horário incompatível, com 14,2%. Entre os ocupados, o horário sobe para 24,6%, empata com a demora e passa o dinheiro, que cai para 15,6%.
Vale a pena abrir a clínica à noite ou no sábado?
Só depois de encurtar a espera. Quatro programas ingleses gastaram £3,1 milhões em horário noturno e de fim de semana e não moveram o total de idas ao pronto-socorro. Em 5.829 consultórios, mais dias de acesso estendido não moveram a satisfação com o acesso: o coeficiente foi 0,0002.
O paciente paga mais por horário estendido?
Muito menos do que paga por rapidez. No experimento britânico, a espera move a disposição a pagar em £77,68 na tontura e £203,92 na dor no peito, da melhor à pior opção; a conveniência de horário move £5,32 e £5,88.
Como sei se a minha agenda trava quem trabalha?
Conte duas coisas nesta semana. Primeiro, quantas vagas você oferece antes das 8h, depois das 18h ou no sábado. Segundo, quantos dias faltam até a sua próxima vaga livre para paciente novo. Entre os ocupados acima de três salários mínimos, 42,9% declararam horário e 8,3% declararam dinheiro.
Esses números valem para clínica particular?
Em parte. A PNS mede a população inteira, com rede pública e privada juntas, e não encontramos nenhuma medição brasileira de por que alguém deixa de marcar numa clínica privada. O que transporta é o mecanismo: a barreira de horário se concentra em quem trabalha, e some em quem não trabalha.
Referências
- McAteer, A.; Yi, D.; Watson, V. et al. Exploring preferences for symptom management in primary care: a discrete choice experiment using a questionnaire survey. British Journal of General Practice, 2015.
- Whittaker, W.; Anselmi, L.; Kristensen, S. R. et al. Associations between extending access to primary care and emergency department visits: a difference-in-differences analysis. PLOS Medicine, 2016.
- Cohen, R. A.; Zammitti, E. P. Access and utilization by Medicaid expansion status for low-income adults aged 19 to 64: estimates from the National Health Interview Survey, United States, 2016. National Center for Health Statistics, 2018.
- Burch, P.; Whittaker, W. Exploring the impact of the national extended access scheme on patient experience of and satisfaction with general practice: an observational study using the English GP Patient Survey. BJGP Open, 2022.
- IBGE. Pesquisa Nacional de Saúde 2019: microdados. IBGE, 2020.
- IBGE. Pesquisa Nacional de Saúde 2019: informações sobre domicílios, acesso e utilização dos serviços de saúde. IBGE, 2020.
Compartilhe com quem cuida da agenda

Rodolfo Franzim
Cofundador da Hiperclini, empresário há quase dez anos. Toca por dentro a operação de uma clínica e fundou uma auditoria de marketing que já atendeu mais de 300 clientes. Escreve sobre venda consultiva, negociação e growth marketing pra quem toca clínica no Brasil.